Escrevo este artigo para desmistificar um pouco o que se vende por ai como aulas, workshops e cursos de defesa pessoal. No meu entender, “comprar” (interiorizar) 90% destes cursos é mais perigoso do que não saber nada.

A realidade é simples de perceber, um homem ou mulher que nunca praticou desporto, ou pratica a ocasional corrida ou ginásio, não está preparado fisicamente, tecnicamente e psicologicamente para um confronto violento com um adversário mais experiente, mais agressivo e habituado a cenários de violência sem regras, para ser mais claro ainda, os praticantes regulares de artes marciais com 2 treinos semanais também não estão preparados para este tipo de confronto.

pessoa sozinha em artigo sobre defesa pessoal segurança-esgrima lusitana cascais.jpgEstarmos convencidos do contrário, ou pior, convencer um grupo de alunos que sabendo uma ou duas técnicas de desarme, dois murros e um pontapé durante um curso de 2 ou 3 dias, os prepara para uma situação real de defesa da sua integridade física, é no mínimo irresponsável. E pode levar um desses alunos a ver-se envolvido em conflitos violentos com uma % ínfima de hipóteses de sucesso.

Na realidade o que vêm à venda por ai são cursos de uma ou outra arte marcial onde abordam as técnicas que consideram mais aplicáveis em confronto armado ou desarmado, contra 1 ou várias adversários, e no caso do que é vendido às mulheres, confronto contra adversários mais fortes.

Não vejo nada de errado em fazer cursos de especialização técnica ou introdução a artes marciais, eu próprio já participei em alguns interessantes… e na Esgrima Lusitana Cascais também treinamos algumas situações de combate com e sem protecções como resposta a ataques armados e desarmados, no entanto estes cursos de duração limitada, não são fabricas de combatentes capazes de se defenderem de tudo e todos, e não deveriam ser vendidos como tal, quando muito podem ter o objectivo louvável de chamar a atenção dos alunos para as várias vertentes do que pode estar envolvido na defesa pessoal e nas artes marciais em geral, e despertar o interesse do aluno para aprender mais e iniciar uma vida parcialmente dedicada ao treino de artes marciais.

O que é a Defesa Pessoal/ Segurança pessoal

Antes de mais um principio básico para situações gerais de assaltos, conflitos, etc.., se chegares ao confronto físico, deixaste para trás 95% do trabalho de resolução dessa situação, e se apenas trabalhas/ treinas técnicas de combate estás a treinar para os últimos 5% do que seria uma abordagem eficaz e segura de um potencial conflito.

Vamos começar por abandonar o nome “defesa pessoal” e usar um termo mais correcto “segurança pessoal”, esta denominação implica uma estado e não uma acção, e como tal o nosso objectivo principal deveria ser a manutenção de um estado de segurança pessoal evitando situações que o tornem inseguro.

Este estado de segurança pessoal de que todos gostamos começa muito antes de um potencial conflito se apresentar, podes até considerar que começa antes de saíres de casa. Se vais para a rua com calças apertadas ou muito largas e a cair, ou saltos de 15cms que não te vão permitir uma fuga ou movimentos confortáveis, de certeza que não vais preparada/o para garantir a tua segurança. Eu sei, as preocupações com a imagem e apresentação podem ser importantes para o teu trabalho ou vida social, mas se calhar, em deslocações poderias andar mais confortável.

Passo a explicar o que entendo ser a melhor abordagem a situações que incluem risco para o teu estado de segurança pessoal, incluindo as matérias que deveriam ser treinadas regularmente e com método para quem quer efetivamente diminuir a probabilidade de se tornar vitima. Basicamente uma lista do que deves considerar, aprender e treinar até o teu estado natural ser a aplicação destes princípios, e os consigas usar quanto todas as reações fisiológicas te dificultarem a discernimento, porque desde a injeção de adrenalina ao medo paralisante, tudo vai estar contra ti.

  • 1. Evitar situações de conflito.
    Manter a atenção ao que te rodeia permite-te identificar e evitar potenciais perigos, por vezes, simplesmente escolher outro caminho porque algo não te parece “encaixar”, permite-te evitar confrontos ou situações de perigo. A maior parte das vitimas de assaltos, descreve a situação como “apareceram do nada”, felizmente o Luís de Matos ou o David Copperfield ainda não andam na rua a assaltar o pessoal, por isso em principio, o que aconteceu foi uma distração ou não perceção de que estariam a entrar numa situação de perigo, este estado de “atenção” tem de ser trabalhado, treinado e aplicado continuamente.
  • 2. Fugir
    Se puderes, e assim que puderes foge, não é vergonha nenhuma, é sobrevivência, foge, grita, pede ajuda, lança foguetes, faz o que for preciso para chamar atenção e ganhar distancia da situação de perigo eminente … Já agora, tens capacidade para correr durante quanto tempo? e que distancia? Não me refiro a corrida em pista a ritmo lento, ou no paredão de Cascais a ver o mar… refiro-me a fugir, a correr em alta velocidade e por entre obstáculos com uma mala na mão, um guarda chuva ou uma mochila às costas com um computador lá dentro.
  • 3. Negociar/ Conversar
    A maior parte dos conflitos pode ser resolvida ou reduzida através do diálogo, existem várias técnicas, e métodos de resolução de conflitos, como principio básico se conseguires ganhar “simpatia” ou “empatia” por parte do potencial agressor, a probabilidade de se passar ao confronto físico diminui consideravelmente. Em ultima analise se o resultado final for ficar sem a carteira, telemóvel ou relógio, será que vale a pena arriscar a vida? De qualquer modo, no mínimo tens de ganhar tempo e oportunidade para aplicares a opção anterior (ponto 2 – Fugir)
  • 4. Atacar primeiro com força e violência
    Tudo até agora falhou… O confronto físico está eminente, não consegues ajuda nem resolver a bem, então ataca com velocidade, força e com grande alarido, todas as pequenas vantagens ajudam, surpresa, medo,… Mas o mais importante é conseguir ganhar uma pequena vantagem uma abertura que te permita fugir (lá voltamos ao ponto 2). Raramente as situações de conflito violento na rua se baseiam no 1 para 1, possivelmente vais estar em desvantagem numérica ou de força, a melhor opção é tentar surpreender e normalmente uma resposta violenta não é esperada, de qualquer modo as hipóteses de sucesso não são grandes.

Isto sem considerarmos a potencial utilização de armas, mas esse é tema por outro artigo, porque além da lei do “a minha é maior que a tua” a utilização de uma arma também requer o domínio de uma técnica e preparação psicológica para a utilizar.

 

treino de bastão de combate e defesa pessoal na esgrima lusitana cascaisEm resumo

Um indivíduo atacado por vários oponentes, conseguir defende-se e deixar todos os oponentes no chão aplicando varias técnicas de combate com ou sem armas, sem levar um toque, só nos filmes… Se entras em confronto físico, mais tarde ou mais cedo vais bater e vais levar, o resultado torna-se um jogo de probabilidades e muitas vezes de sorte, o melhor é evitar o confronto físico.

Pessoalmente e puxando a brasa à Esgrima Lusitana – Jogo do Pau Português uma vara ou bastão dão sempre jeito, nem que seja como bengala.

 

 

Autor: Ricardo Moura (Esgrima Lusitana Cascais)

Review Defesa pessoal não se aprende em cursos de dois dias

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